Soraya Thronicke chama Frei Gilson de "falso profeta" e o acusa de misoginia
O que acontece quando uma senadora da República, criada em berço católico, resolve enfrentar um dos religiosos mais influentes do país diante de milhões de seguidores? A resposta veio na última quarta-feira (22), e o embate promete ecoar por muito tempo nos corredores do Congresso, nas redes sociais e nos templos.
A senadora Soraya Thronicke (PSB-MS) usou sua conta oficial na rede social X (antigo Twitter) para detonar o frei Gilson Azevedo, frade carmelita e fenômeno digital que acumula mais de 12 milhões de seguidores no Instagram . O motivo? Um vídeo — na verdade, um recorte de uma pregação de 2025 — no qual o religioso discorre sobre o papel da mulher no matrimônio, criticando o empoderamento feminino e defendendo a liderança masculina como "desígnio divino".
A parlamentar não poupou palavras. Classificou o frei como "falso profeta" , acusou-o de misoginia e intolerância religiosa e foi além: cobrou da Igreja Católica "severas providências" diante do que chamou de "limites ultrapassados". Em poucas horas, o post ultrapassou 350 mil visualizações, acumulou milhares de comentários e dividiu a opinião pública .
Mas o que exatamente foi dito? Quem é Frei Gilson? E por que essa briga, que envolve política, religião e gênero, é tão representativa do momento conturbado que o Brasil vive? Neste artigo, vamos destrinchar cada aspecto da polêmica, ouvir os argumentos de cada lado e explicar as repercussões jurídicas, políticas e sociais desse confronto.
1. O estopim: o vídeo e as declarações que incendiaram as redes
Para entender a reação da senadora, é preciso primeiro compreender o conteúdo que a indignou. O vídeo compartilhado mostra um trecho de um sermão de Frei Gilson, provavelmente gravado em 2025, no qual ele aborda as diferenças entre os gêneros sob a ótica da doutrina cristã.
"A mulher nasceu para auxiliar o homem"
No trecho que viralizou, o frei faz uma leitura literal do livro de Gênesis, especificamente do versículo 2:18, onde Deus declara: "Não é bom que o homem esteja só; far-lhe-ei uma auxiliadora que lhe seja idônea" .
A partir dessa passagem, o religioso constrói sua argumentação:
"Para curar a solidão do homem, Deus fez você. Olha o texto bíblico, Gênesis 2:18. O que está escrito aí? 'Vou dar-lhe uma auxiliar que lhe seja adequada'. Deus faz uma promessa para Adão: 'Eu vou fazer alguém para ser sua auxiliar'. Aqui você já começa a entender qual é a missão de uma mulher. Ela nasceu para auxiliar o homem."
Ele também critica duramente o conceito de empoderamento feminino, que associa a uma "ideologia dos mundos atuais":
"Ela [a mulher] sempre quer ter mais. Eu não me contento só em ter qualidades normais de uma mulher, eu quero mais. E isso é a ideologia dos mundos atuais. Uma mulher que quer mais, eu vou até usar a palavra que vocês já escutaram muito: empoderamento."
Sobre a estrutura familiar, Frei Gilson é taxativo ao defender a liderança masculina:
"É claro ver que Deus deu ao homem a liderança. É claro ver que Deus deu ao homem o ser o chefe. Isso está na Bíblia. O homem é o chefe do lar. O homem foi dado a ele liderança. Mas a mulher tem o desejo de poder. Não é desejo de serviço, desejo de poder. Repito a palavra: empoderamento. Essa palavra é do mundo atual."
Por fim, ele classifica a chamada "guerra dos sexos" como algo diabólico:
"A guerra dos sexos é ideologia pura. A guerra de masculino com feminino é diabólica."
O contexto da fala
É importante notar que o vídeo compartilhado por Soraya é um recorte — o que, segundo defensores do frei, pode tirar a fala do contexto original. Uma nota de repúdio emitida pela Frente Parlamentar Católica de Fortaleza, em defesa do religioso, argumenta justamente que os trechos foram "apresentados fora de seu contexto original, nos quais refletia sobre o papel da mulher à luz da tradição cristã, gerando interpretações equivocadas e reações desproporcionais" .
No entanto, para a senadora e seus apoiadores, o contexto pouco importa: a mensagem central — de que a mulher teria uma "missão" de submissão e auxílio ao homem — é intrinsically problemática, especialmente em um momento em que o Brasil avança na tipificação da misoginia como crime.
2. A resposta de Soraya Thronicke: "Falso profeta" e pedido de providências
A reação da senadora foi rápida, quase imediata. Ao compartilhar o vídeo, ela não se limitou a repostar: escreveu um comentário contundente e, em seguida, adicionou outro ainda mais duro.
O xingamento que ecoou
O primeiro tuíte foi uma declaração ampla, que atinge não apenas Frei Gilson, mas todo um sistema de lideranças religiosas que, segundo ela, distorcem a fé:
"Mais um falso profeta. São freis, padres, pastores, pais de santo, políticos e etc. usando o nome de Deus em vão. Apesar da nossa laicidade, não posso deixar de destacar que eles infringem diuturnamente a própria fé que propagam, norma disposta no 3º mandamento (Êxodo 20:7). Haja fé para sobrevivermos nestes tempos…"
A escolha do termo "falso profeta" é particularmente pesada no meio religioso. Na tradição judaico-cristã, um falso profeta é alguém que alega falar em nome de Deus, mas ensina doutrinas contrárias à verdade revelada. Ao usar essa expressão, Soraya não está apenas discordando do frei — está questionando a legitimidade espiritual de seu ministério.
O apelo direto à Igreja Católica
Em um segundo momento, a senadora fez questão de qualificar sua própria biografia religiosa para dar mais peso à crítica:
"Nasci em berço católico e posso dizer que esse frei não me representa. Ele já passou de todos os limites possíveis de intolerância religiosa, misoginia e etc. Espero que nossa Igreja Católica tome severas providências."
Essa fala é estratégica. Ao afirmar que nasceu católica, Soraya desarma antecipadamente o argumento de que seria "anticatólica" ou "perseguidora de cristãos". Ela se posiciona como uma filha da Igreja que está envergonhada com o comportamento de um de seus representantes — e que pede a própria instituição que tome as rédeas da situação.
Ela ainda foi mais longe ao usar o termo "misoginia" , que naquele momento histórico tem peso jurídico. Em março de 2026, o Senado aprovou um projeto de lei que tipifica a misoginia como crime de preconceito e discriminação — e Soraya Thronicke foi justamente a relatora dessa proposta no Senado .
Contexto relevante: A senadora foi relatora do projeto que classifica a misoginia como crime de preconceito e discriminação. O texto define misoginia como qualquer conduta que expresse ódio, aversão ou desprezo contra mulheres, baseada na crença de supremacia masculina . Ao chamar Frei Gilson de misógino, Soraya está, na prática, aplicando a nova lógica jurídica a um caso concreto de discurso religioso.
3. Quem é Frei Gilson? O fenômeno digital que divide opiniões
Para entender a dimensão da polêmica, é imprescindível conhecer o alvo das críticas. Frei Gilson da Silva Pupo Azevedo não é um religioso comum. Aos 39 anos, ele se tornou um verdadeiro fenômeno de massas, especialmente durante a pandemia e nos anos seguintes.
Do silêncio da madrugada ao estrelato digital
Nascido em São Paulo em 17 de dezembro de 1986, Frei Gilson foi ordenado sacerdote em 2013, integrando o Instituto dos Freis Carmelitas Mensageiros do Espírito Santo. Por nove anos, serviu na Paróquia Nossa Senhora do Carmo, na Diocese de Santo Amaro .
Sua fama explode quando ele começa a transmitir orações ao vivo nas redes sociais, muitas vezes começando às 4h da manhã. O horário incomum, combinado com uma mensagem direta e uma estética acolhedora, conquistou milhões de fiéis sedentos por espiritualidade em um mundo cada vez mais acelerado.
Os números impressionam:
- Mais de 12 milhões de seguidores no Instagram
- Cerca de 1,3 milhão de ouvintes mensais no Spotify, com músicas como "Eu Seguirei" e "Acalma Minha Tempestade"
- Durante a Quaresma, suas lives chegaram a ultrapassar 1 milhão de espectadores simultâneos
Na prática, Frei Gilson tem uma audiência maior do que muitos programas de TV aberta. Ele é, sem dúvida, uma das vozes católicas mais influentes do país — o que explica por que suas falas geram tanto impacto.
Aproximação com o bolsonarismo
Outro fator que torna Frei Gilson uma figura polarizadora é sua aliança (explícita ou implícita) com o campo político conservador. Embora evite declarar voto em candidatos específicos, sua mensagem sobre família, hierarquia e "guerra espiritual" encontra forte ressonância no eleitorado bolsonarista.
O próprio deputado Helio Lopes (PL-RJ) saiu em sua defesa, acusando Soraya de "perseguição religiosa escancarada" . Para críticos, Frei Gilson é o que se convencionou chamar de "padre redpill" — um termo que faz alusão ao movimento masculinista online que prega a suposta superioridade masculina e critica o feminismo .
"O tipo de sermão que estimula feminicídio", escreveu uma internauta em reação ao vídeo, em um comentário que resume a percepção de parte significativa da oposição ao frei .
4. As reações: defesas, ataques e o perigo da "perseguição religiosa"
Como era de se esperar, a publicação de Soraya não passou em brancas nuvens. As reações vieram de todos os lados — de aliados conservadores do frei a entidades católicas e parlamentares da oposição.
Defesa institucional do frei
A primeira resposta organizada veio da Frente Parlamentar Católica de Fortaleza, presidida pelo vereador Jorge Pinheiro (PSDB-CE). Em nota oficial, o grupo repudiou as declarações da senadora, classificando-as como "graves" e atentatórias à "honra de um ministro religioso" .
A nota destaca que Frei Gilson é "reconhecido por sua fidelidade à Igreja, por sua vida de oração e por seu compromisso com a evangelização" e que o vídeo compartilhado estaria "fora de contexto" . O documento também toca em um ponto sensível da Constituição brasileira: a liberdade religiosa.
"É inadmissível que a exposição fiel de um ensinamento doutrinário seja tratada como irregularidade, ferindo a liberdade religiosa e o legítimo direito de um sacerdote ensinar a fé que professa", diz a nota .
Deputada protocola Moção de Repúdio contra Soraya
A deputada federal Simone Marquetto (PP-SP) foi além. Ela protocolou um requerimento pedindo uma moção de repúdio às falas da senadora. Em sua justificativa, Marquetto argumentou que Soraya extrapolou os limites da crítica política ou teológica ao rotular um religioso de "falso profeta" .
"Ressalto que tais manifestações ganharam ampla repercussão na mídia nacional, sendo objeto de cobertura por diversos veículos de comunicação e gerando intenso debate público nas redes sociais e na sociedade em geral", escreveu a deputada .
Marquetto acrescentou um elemento pessoal ao defender o frei: afirmou ter convivido com ele e que o sacerdote tem "conduta íntegra, compromisso com valores cristãos e dedicação ao próximo" .
Helio Lopes: "Perseguição religiosa escancarada"
O deputado Helio Lopes (PL-RJ), um dos nomes mais à direita no Congresso, também entrou na briga. Em suas redes sociais, ele acusou Soraya de atentar contra a fé de milhões de brasileiros:
"O que estamos presenciando é uma PERSEGUIÇÃO RELIGIOSA escancarada. Quando uma parlamentar usa seu cargo para atacar e rotular um líder religioso como o Frei Gilson, ela atenta contra a fé de milhões de brasileiros."
A acusação de "perseguição religiosa" é grave e juridicamente relevante. A liberdade de crença é um direito fundamental garantido pela Constituição de 1988, e qualquer tentativa de cerceá-la é vista com extrema reserva pelo Judiciário. Ao usar esse termo, Lopes tenta deslocar o debate do campo da misoginia para o campo da intolerância contra cristãos — uma estratégia recorrente em polêmicas envolvendo costumes religiosos.
O silêncio do convento
Em meio a todo o barulho, uma voz ficou notavelmente ausente: a do próprio Frei Gilson. Procurado pela imprensa, sua assessoria limitou-se a declarar que o religioso "dedica-se integralmente ao seu ministério pastoral e às atividades inerentes à sua vocação religiosa" e que "como prática, preservamos essa rotina e não encaminhamos as repercussões públicas" .
O silêncio pode ser interpretado de duas formas: ou como um gesto de altivez e distanciamento da polêmica mundana, ou como um sinal de que o frei reconhece o dano potencial de suas falas e prefere não aprofundar a crise. O tempo dirá qual das interpretações prevalece.
5. A dimensão política: trânsfuga do bolsonarismo?
Para entender completamente o embate, não se pode ignorar a trajetória política da própria Soraya Thronicke. A senadora, hoje no PSB, teve uma história de proximidade com o bolsonarismo — e sua ruptura com o ex-presidente é um pano de fundo essencial desta polêmica.
Da vice-liderança de Bolsonaro ao PSB
Eleita em 2018 pelo PSL (partido pelo qual Jair Bolsonaro também se elegeu presidente), Soraya chegou a ser vice-líder do governo Bolsonaro no Congresso Nacional em 2021 . Na época, ela era vista como uma das principais vozes femininas da nova direita brasileira, com um discurso que combinava pautas de segurança, liberalismo econômico e crítica ao "politicamente correto".
No entanto, o divórcio veio. Recentemente, Soraya deixou o Podemos (partido para o qual migrou após o PSL) e se filiou ao PSB, legenda de oposição ao bolsonarismo e governada pelo PDT e por setores do centro-esquerda. A janela partidária foi aberta em meio às articulações para as eleições de 2026, quando ela pretende concorrer novamente ao Senado .
A atitude mais explícita de rompimento, no entanto, foi seu voto contra o relatório final da CPI do Crime Organizado, que apurava supostos crimes relacionados ao Banco Master. O parecer, de autoria do senador Alessandro Vieira (MDB-SE), previa o indiciamento de ministros do Supremo Tribunal Federal — como Gilmar Mendes, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes — com forte apelo ao eleitorado conservador . Ao votar contra, Soraya selou seu destino como "traidora" para a tropa de choque bolsonarista.
A "senadora do Bolsonaro" contra o "padre bolsonarista"
Essa história importa porque Frei Gilson é, para muitos, um símbolo do catolicismo politizado alinhado a Bolsonaro. Ao atacá-lo, Soraya não está apenas discutindo teologia ou direitos das mulheres: ela está, em certa medida, consolidando sua nova identidade política como alguém que rompeu com o passado.
Uma análise publicada pelo Diário do Centro do Mundo destaca justamente essa dualidade: "Soraya Thronicke detona bolsonarista Frei Gilson" . O termo "bolsonarista" é usado não apenas como adjetivo religioso, mas principalmente como rótulo político.
A estratégia, embora eficaz para marcar posição, também traz riscos. Ao atacar uma figura tão influente entre os evangélicos e católicos conservadores, Soraya pode estar colhendo inimizades poderosas em um ano eleitoral. O padre Marcelo Rossi, por exemplo, embora não tenha se manifestado, movimenta milhões de votos — e figuras do naipe de Frei Gilson têm poder semelhante.
1. O que exatamente Frei Gilson disse para gerar essa polêmica?
2. Por que Soraya Thronicke chamou Frei Gilson de "falso profeta"?
3. O que diz o projeto de lei contra a misoginia que Soraya relatou no Senado?
4. A Igreja Católica já se posicionou oficialmente sobre o caso?
5. O caso pode gerar consequências jurídicas para Frei Gilson?
Perguntas Frequentes (FAQ)
Resposta em breve.
De um lado, temos defensores da liberdade teológica e do direito de líderes religiosos interpretarem suas escrituras, por mais que essa interpretação choque a sensibilidade contemporânea. De outro, temos aqueles que veem nessa liberdade uma justificativa perigosa para manter as mulheres em posição de subalternidade — o que a nova lei de combate à misoginia busca exatamente erradicar.
Não há respostas fáceis. Mas uma coisa é certa: esse debate não vai terminar tão cedo. E nós precisamos dele para definir que país queremos construir.
Compartilhe este artigo com seus amigos e familiares para que mais pessoas possam entender os dois lados dessa história. E deixe sua opinião nos comentários: Frei Gilson cruzou a linha ou apenas exerceu sua liberdade religiosa? Soraya Thronicke está certa em denunciar ou exagerou ao usar o termo "falso profeta"? Sua participação é essencial para que saiamos da polarização e entremos no diálogo.
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